terça-feira, 26 de abril de 2011

Como as coisas mudam...


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
 
 
Hoje é mais um daqueles dias em que me apetece ler poesia. Adoro poesia, adoro o modo como as palavras têm um significado tão forte que até nos podem fazer sentir coisas que nunca antes haviamos sentido. 
Este poema de Eugénio de Andrade é, sem dúvida, o meu poema favorito dele. Penso que o poema segue muito a temática da mudança e como às vezes duas pessoas anteriormente ligadas por algum motivo, apercebem-se tempos depois que já nada têm em comum, que as coisas já não são como antes, que querem coisas diferentes para si... 
Chega uma certa altura na nossa vida em que todos temos que seguir um caminho diferente de alguém. 
Um exemplo tão simples como a passagem do secundário para a universidade, em que são vários os colegas e/ou amigos que seguem um trajecto diferente. 
Contudo, quem sabe se um dia os caminhos não se cruzam novamente? A vida dá tantas voltas...
 
 
 
 

Um comentário:

  1. Olá!
    Nunca gastámos as palavras pela rua, meu amor,
    e o que nos ficou nunca chega
    para aumentar o calor do meu coração.
    Contigo não existe silêncio.
    Contigo partilho o sal das lágrimas,
    Nossas mãos eternamente juntas,
    Nenhuma espera vã se dá ao esperar por ti, porque em ti encontro tudo.
    Meto as mãos nas algibeiras
    e sinto me cheio.
    Temos tanto para dar um ao outro!
    É como se tudo fosse nosso:
    quanto mais te dava mais tinha para te dar.
    Às vezes Digo: os teus olhos são peixes verdes!
    e acredita.
    Acredita meu amor,
    porque ao teu lado
    todas as coisas são possíveis.
    Nunca gastaremos as palavras.
    Quando agora digo meu amor,
    tudo em mim estremece.
    E no entanto,
    tenho a certeza
    de que em ti todas as coisas estremecem
    só de murmurar o meu nome
    no silêncio do meu coração.
    Temos tudo para dar.
    Dentro de ti
    Sou o teu sangue.
    O passado é o reflexo do nosso caminho ao futuro.
    E já te disse: as palavras nunca estarão gastas.
    Olá.

    Meu amor, modifiquei o poema, tenho em conta o nosso amor, que acho que é algo raro, tao raro como o desabrochar de uma flor num local árido.
    Eternamente teu, o Teu Ruru <2+1 :P
    AMO TEEEEEEEEE

    ResponderExcluir