Um coração que bate fortemente. Uma vida sem rumo. Não é uma vida afinal. É uma agonia face à passagem do tempo. Mas para ela o tempo não passa nunca. Ela está estagnada. Presa algures num momento sem retorno, ela vê a vida a passar, nada assimilando, por nada sorrindo. Como e porquê sorrir? Que motivos tinha ela para fazer tal coisa? Seu amor partira! Apenas lhe restavam as memórias, memórias essas que insistiam em assombrar a sua mente, magoando-a por dentro. Amar não é fácil! Pelo contrário, amar é uma luta constante contra a dor que se instala numa alma perdida quando o amor diz adeus e não mais volta. Porém, ela já estava cansada de lutar, pois nem sequer sabia porque é que lutava.
Certo dia, mais um daqueles dias em que o tempo simplesmente se arrastava, ela decidiu que tinha que pôr um fim à sua dor. Já bastava viver assim. Ou não viver de todo. Assim, num belo dia de Verão, mas não belo para si, pois para ela nenhum dia era já belo, acordou com um pensamento e decidiu segui-lo. Por isso, como se fosse a coisa mais acertada que alguma vez tivesse feito, ela abriu a janela do seu quarto e empoleirou-se. Olhando para o chão, viu como a distância que separava a janela do seu quarto do chão, era uma distância relativamente grande. Mas tal facto não a deteve. Ia contar até três e depois iria voar. Sim voar, pois para ela tal acto não era um acto de morte, era um acto de liberdade. Ela finalmente podia ser livre como os pássaros que voam em direcção à madrugada.
1,2… Uma aparição. Como era possível? Ela ainda nem tinha caminhado em direcção à sua liberdade e já estava a ver coisas que só deveriam ser vistas na vida após a morte, se é que isso existia. Então como e porque é que o único homem que tinha amado verdadeiramente estava à sua frente, em carne e osso, como se estivesse vivo? Mais surpreendida ficou quando a sua voz doce, sempre tão doce fora, se fez ouvir:
- Não faças isso.
Sem dar por isso, sem ter qualquer controlo sobre a sua própria voz, ouviu-se responder:
- Quero estar contigo.
- Eu já estou contigo todos os dias. Estou guardado no teu coração que ainda bate por mim.
Uma lágrima caiu pelo seu rosto. O seu amor estava à sua frente a falar consigo como há semanas atrás antes da sua morte.
- Mas eu sofro por ti. Se fizer isto, posso estar realmente contigo, posso sentir-te e tu podes sentir-me a mim.
A mão dele acariciou o rosto dela, como se a visse pela primeira vez.
- Se fizeres isto, deixarás alguém muito importante que precisa de ti para trás.
- De que falas? – perguntou ela, chorando ainda mais.
- Confia em mim. Daqui a uma semana, receberás uma notícia que irá fazer com que a tua vida volte a ser um girassol.
- Eu… - calou-se. Não conseguia dizer mais nada. Não quando o seu amor colocara um dedo nos seus lábios como que a pedir para ela não dizer mais nada.
De súbito, toda a tristeza do momento se foi, toda a dor antes sentida se desvaneceu ao sentir os seus lábios nos do seu amor. Quando os seus lábios se tocavam, todo o mal desaparecia. Instalava-se sim uma aura de paixão e desejo celebrada com um beijo tão repleto de significado. Às vezes, não há nada para se dizer. Basta sentir fazendo o que o coração pede.
Após um beijo delicioso, um momento que não deveria ter um fim, ela olhou para o seu amado com um novo brilho no olhar, um brilho maior que o próprio sol, um brilho que há muito não emanava de si.
- Amo-te. – disse ele. Uma palavra tão pequena mas com um significado maior que o próprio mundo.
- Amo-te. – respondeu ela, sorrindo pela primeira vez em muito tempo.
- Confias em mim? – perguntou o seu amado.
- Confio.
- Então – disse ele, colocando a mão dela no seu coração – faz o que te digo e espera até à próxima semana. Após receberes a notícia que irás receber, acredita que voltarás a sorrir. E até lá, para que não fiques triste, lembra-te de que eu estou a zelar por ti e não te esqueças que esteja onde eu estiver, o meu coração chamará sempre pelo teu.
- Eu não me esqueço! – exclamou, abraçando o seu amor, fechando os olhos por breves segundos. Os breves segundos bastaram. Ao abrir novamente os olhos, já ele não estava lá. Mas iria fazer o que ele dissera. Esperaria uma semana. Por ele esperaria. Por ele faria tudo o que fosse preciso.
*
É difícil para qualquer pessoa esperar por o que quer que seja. Quanto mais se quer saber algo, parece que mais o tempo demora a passar. Mas uma semana passara. Saber que o seu amor estava a protegê-la embora longe era conforto suficiente para aguentar o que quer que fosse. Na vida há que se agarrar a algo ou a alguém para que tudo seja mais fácil de suportar. Ela aprendera isso.
E também aprendera a lição mais importante de todas: às vezes, quando uma pessoa se sente perdida, como se nada importasse mais e se torna difícil sorrir perante a vida, algo surge subitamente mudando tudo quando menos se espera.
A notícia da sua gravidez deixara-a espantada. Mas mais do que espantada, deixara-a feliz. E era isso mesmo que o seu amor queria: que ela fosse feliz. E agora ela tinha uma razão para voltar a sorrir, pois outra pessoa viria a precisar de si mais do que nunca e essa pessoa era fruto do seu amor com o único homem que realmente amara. E isso era algo que ela nunca esqueceria. Aquela pessoa dentro de si que ela viria a trazer para o mundo era a lembrança de um amor que existira, que fora, de facto, real.
- Não vou chorar porque não estás aqui. – pensou ela para si mesma após sair do consultório. – Vou sorrir porque aconteceu, porque tu e eu existimos e continuamos a existir com este fruto vindo da flor do nosso amor.
E um último pensamento voltou a passar pela sua mente. Um pensamento tão simples como o ar que respirava.
- Será menino ou menina?

Quando li isto pela primeira vez, deste me vontade enorme de chorar, somos nós *.*
ResponderExcluirMas vou dar te um final feliz, o pouco que a minha vida dure é tua :D
AMO TE HOJE E SEMPRE :D
Daniela, minha querida, o texto está no mínimo estupidamente perfeito. Mas, tenho umas quantas coisas a dizer-te:
ResponderExcluirNão sei já o que é amar, soube apenas uma vez em toda a minha vida, e não foi naquela em que presenciaste.
Mas também não sei o que é sofrer, porque o sofrimento pelo qual nós passamos é tudo e nada, somos nós mesmas que o fazemos.
Que a tua felicidade se mantenha num sempre só vosso e que eu possa vê-la assim daqui do meu cantinho.
Um beijinho *